quarta-feira, 26 de junho de 2013

Bahia: Sábado, 02 de Fevereiro de 2013


Faltava uma semana para o Carnaval, e já estávamos no ritmo da Bahia!

Largamos de nossa vaga, a fim de liberar para outro barco que estava chegando, e as 10h32 fundeamos nas proximidades da Bahia Marina, em um fundo de seis metros de profundidade e com 25 metros de amarra, onde aguardamos a chegada dos últimos convidados, que foram embarcados com o uso do Verde&Rosa.

As 13h30 suspendemos e rumamos para sotavento da Ilha do Frade, nas proximidades do Terminal de Madre de Deus, onde fundeamos com 30 metros de amarra, as 15h20, após uma curta travessia através do canal dragado para os navios petroleiros.

O almoço tardio, foi servido ao final da tarde, e constou de uma entrada com salada verde, palmito, gorgonzola e passas, seguida de um de nossos pratos mais tradicionais, o Arroz de Polvo com olive taggiasche, uma azeitona típica da Ligúria, que permite um perfume e uma cremosidade especiais ao prato.

Pernoitamos no local, que é bastante tranquilo, com a Lua minguante de moldura.

Bahia Marina: Sexta-feira, 01 de Fevereiro de 2013


O dia raiou da melhor maneira possível, com sol e quase sem nuvens. O barco estava brilhando, assim como nosso bote de apoio, amarrado a contrabordo.

Parte dos convidados chegou com o proprietário, e o dia foi de boas-vindas e organização das próximas etapas do passeio, além de algumas compras de última hora.

Servimos de entrada, figos ao mel trufado, rúcula e presunto Parma; de prato principal um magret de pato, acompanhado de aspargos ao vapor e shitake ao sake. De sobremesa, uma torta gelada de nozes. Demos preferência a servir figos e shitake, logo no primeiro dia, pois são ingredientes que estragam ou amadurecem muito rapidamente.

Como sempre, algo importante pifa na pior hora. Um dos HD’s de nosso sistema principal de arquivo de filmes apresentou avaria, e quase instantaneamente o fabricante me enviou um email dos USA, avisando do problema em nosso equipamento e indicando a necessária substituição do HD. Infelizmente, como não há representantes deles no Brasil, este problema acabou demorando meses para ser solucionado.

Quinta-feira, 31 de Janeiro de 2013

Foram dois dias de intensa limpeza, e preparação para a chegada dos primeiros convidados, que viriam nos próximos dias. Com o barco parado, enquanto um trabalhava na parte externa, limpando e polindo, outros trabalhavam e preparavam as cabines, as salas, cozinha, a despensa e tudo o que seria exigido nos próximos dias de "casa cheia".

Para nos locomover em Salvador, utilizo os serviços de um taxista em especial. Ele foi indicado por um colega, o Assis, que comandou o Iate Arpoadora e aqui esteve varias vezes. O motorista Átila é daquelas pessoas a quem você apresenta um problema, e ele acaba resolvendo: precisa de uma peça que vai dentro de uma máquina? Ele encontra. Precisa de um reparo de marcenaria, laminação, costura, quem sabe um barbeiro? Ele te leva e apresenta. Com ele, desta vez, consegui alguns fusíveis, fiz as compras no Perini, e mais uma vez não consegui ir comer lambreta, num restaurante do centro, que o Átila vive me indicando, uma pena.

Problemas que enfrentamos? Atracados, ocorre uma interferência que atrapalha os sinais de SKY em nossa antena. É fato que as antenas rastreadoras de 60 cm de diâmetro, como a nossa, começam a perder sinal assim que passamos dos Abrolhos, mas isto pode ser compensado, girando a LNB por alguns graus. Porém, atracados à Bahia Marina o sinal se perde, se mistura, canais desaparecem - um desastre, que só para, assim que desatracamos, portanto não se desespere!

Outro problema, é que a energia na Marina não é forte o bastante para nos atender, e temos de virar o gerador o tempo todo. Tentamos nos conectar a duas tomadas, o que funcionou apenas durante a noite, com dois compressores de ar condicionado acionados. Precisamos cair na real, que atender com simpatia apenas, não basta! Já foi o tempo.
 

 

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Navegando do Rio de Janeiro a Salvador


Sábado, 26 de Janeiro de 2013.

Nesta curta estadia, tivemos de desmontar parte da cozinha a fim de sanar problemas no dreno de uma unidade de ar condicionado, e também nos trilhos de algumas gavetas, coisas que costumam acontecer sempre às vésperas de qualquer viagem... coisas do tal de Murph! Além disso, alguns reparos e configurações nos eletrônicos, estavam pendentes fazia algum tempo, e foram realizados pela Waypoint.

A cobertura de nuvens foi aumentando durante todo o dia e o barômetro indicou uma tendência de baixa. De madrugada, por volta das 03h00, entrou uma pré-frontal no Rio de Janeiro com muitos raios, muito vento e chuva pesada! O barômetro despencou de 1018 para 1010 milibares.

Pela manhã, caia uma chuva fina na Baia da Guanabara, e assim ficou durante o dia. As 16h00, com um vento de Noroeste fraco e céu ainda ameaçador largamos os cabos, seguindo viagem para Salvador, agora com tripulação completa. Adriano, nosso cozinheiro; Adenilson no convés; Veronesi nas máquinas, eu e Elton, nosso “quinto-elemento”, um reforço necessário para este tipo de cruzeiro, pois auxilia em todos os serviços de bordo.

As 16h50 montamos a Ilha do Pai, com vento Sudoeste de 12 nós e mar começando a tomar direção, mas ainda com pequenas vagas.

Após o anoitecer, o vento rondou para Sueste e aumentou de intensidade, chegando próximo dos 30 nós reais, fazendo nossa velocidade cair abaixo dos 8.0 nós.

Diferente da narrativa de uma viagem em barco à vela, onde o mar e o vento influência de forma contundente as manobras e os rumos, em um barco a motor nossa preocupação maior é com a singradura, ou seja o número de milhas que conseguimos vencer a cada dia, e a importante tarefa de vigilância externa, desviando de navios e outros alvos que constantemente surgem pelo nosso caminho.

No Iate/Motor Gattina, mantemos nosso Radar Banda S (mais confiável quando nos afastamos da costa) em funcionamento durante quase toda a viagem. Além dele, o plotador de cartas eletrônicas e outros equipamentos, como rádios VHF e SSB, além do AIS, um transponder que permite identificar as embarcações comerciais à nossa volta, e que também identifica nosso barco para todas as outras embarcações, o que trás muito mais segurança em nossa navegação. Fora os equipamentos, mantemos quartos de vigilância permanentes, onde os tripulantes se revezam dia e noite.
 

Domingo, 27 de Janeiro de 2013.

Eram 23h45 quando montamos o Cabo Frio e colocamos nossa proa rumo a um ponto ao largo do cabo de São Tomé, num rumo praticamente Nordeste. O vento continuou de Sudeste, e seguimos viagem, pouco abaixo dos dez nós e com muitos balanços, devido ao mar de través (de lado).

Pouco depois das 05h00 um rebocador de nome Norsul Crateús acabou passando muito próximo, a 0.4 de milha, entre nós e outro rebocador que descia a costa.

Após clarear, pudemos ver que o mar havia crescido e que tínhamos algo entre os mares de estado III e IV, quando os carneirinhos se tornam bastante freqüentes. Seguimos por toda a manhã com baixa visibilidade, na casa dos cinco a dez quilômetros e muito tráfego de apoio marítimo, com rebocadores indo e vindo entre as plataformas da Bacia de Campos e a base na cidade de Macaé. As 10h35 mudamos nosso rumo para os Abrolhos, deixando para trás um dos trechos mais complicados de nosso litoral.

As 19h00 cruzamos com o navio Blue Angel conseguindo conversar via radio, com meu grande amigo, o Comandante Pedro Podboy, que cruzou conosco em sua navegação rumo a uma plataforma mais ao Sul de nossa posição. Começou a chover fino, e o horizonte para os lados de terra, continuava muito carregado, como o foi durante todo o dia.

Por volta das 20h00 houve um problema de aquecimento no gerador de Boreste, e ficamos sem energia por alguns minutos, sendo logo restabelecida. Continuamos durante a noite, mantendo velocidades entre os 9 e os 10 nós e já no litoral Norte do Espírito Santo, deixando Vitória pela esteira.
 

Segunda-feira, 28 de Janeiro de 2013.

Durante parte da noite, desviamos de plataformas e rebocadores, mantendo nosso rumo para os Abrolhos.

O mar continuava um pouco encrespado, e o vento do quadrante Sul, permitia uma viagem um pouco mais confortável. Passamos pelos Abrolhos, as 14h00 e rumamos para um ponto mais ao Norte, ao largo de Belmonte.

A Bahia nos brindou com céu claro, e tivemos o primeiro por do sol descente, desde a saída do Rio. Uma brisa de Leste se manteve fraca, não impedindo o nosso bom andamento.
 

Terça-feira, 29 de Janeiro de 2013.

Amanheceu e encontramos mar liso e brisa suave de terra, nossa marcha se mantinha na casa dos 9 nós. Pirajás, as conhecidas nuvens de chuva de verão da Bahia nos cercavam por todos os lados, mas nenhuma ameaça que não fosse um pouco de chuva rápida.

A navegação correu tranqüila o dia todo, já com Salvador em nosso rumo direto. As 20h00 atrasamos os relógios em uma hora, acertando com o fuso da Bahia, que não adota o horário de verão.

Poucos minutos após as 23h00, largamos nossa âncora e trinta metros de corrente de amarra, em frente a entrada do molhe de proteção da Bahia Marina em Salvador, sob céu estrelado e os acordes dos trios elétricos que acertavam o som na Cidade Alta, alguns dias antes do Carnaval.

Nosso log registrava 810 milhas, desde Angra dos Reis.


Quarta-feira, 30 de janeiro de 2013.

Nas primeiras duas horas do dia, repusemos o diesel consumido na viagem de ida a Salvador, e após um golpe de sorte, conseguimos uma vaga na cabeceira C da Bahia Marina, atracando o Gattina, as 08h25 de uma manhã radiante.

Encontrar um cais com água doce é muito importante após qualquer travessia, pois o sal tem o poder de penetrar em toda e qualquer fresta de uma embarcação. Como, muito em breve iríamos receber convidados, era necessária uma faxina total do barco, interna e externa, além de abastecer as geladeiras com os víveres necessários às próximas semanas, quando serviríamos dezenas de refeições.

 

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Preparando a Partida de Angra para Salvador


23 de Janeiro de 2013

 

Preparação para Partida de Angra dos Reis

Após uma semana de preparação intensa para realização de um cruzeiro no litoral da Bahia, registrávamos em nosso Log Geral a marca de 36.000 milhas navegadas antes mesmo desta partida, quando então zeramos o Contador de Milhas do NavNet Furuno, a fim de registrar as novas milhas que viriam.

Fizemos as compras de todos os alimentos congelados, secos, enlatados e bebidas para um roteiro de trinta dias, com lotação quase que máxima à bordo, e ainda as frutas e verduras necessárias a travessia da tripulação rumo a Salvador.

A previsão do tempo indicou que encontraríamos vento Leste fraco entre Angra e Rio, mas que a passagem de uma frente fria deveria permitir uma subida até os Abrolhos, com vento favorável.

24 de Janeiro de 2013

Amanheceu com um céu tingido de vermelho, o que significa mudança de tempo próxima, e pouco antes das 07h00 largamos nossa vaga na Marina do Piratas, rumo ao Posto Flutuante Golfinho, onde completamos nossos tanques de diesel, e embarcamos sete baldes de 20 litros de óleo lubrificante. Como houve uma pequena sobra no abastecimento, destinamos 95 litros de diesel para nosso barco de apoio, o bote de 26 pés, Verde&Rosa que viajaria no reboque durante toda a viagem.

Terminado o abastecimento, nos dirigimos a um canto da Ilha da Gipóia onde realizamos uma pequena limpeza nos eixos, hélices e lemes, a fim de permitir uma navegação mais econômica.

Era meio-dia quando nos colocamos a caminho do Rio, com quatro tripulantes à bordo, visto que o cozinheiro seguiria de automóvel. As 14h30 montamos a Ponta Grossa da Marambaia e encontramos uma Lestada razoável pela proa, fazendo cair a velocidade em mais de um nó!

Quando anoiteceu, já estávamos adiante da Ilha Rasa de Guaratiba, e entramos à Barra Pequena do Rio de Janeiro, as 21h00, fundeando nas proximidades do ICRJ logo depois.

Apesar do mar e do vento, mantivemos a marcha media de 7,9 nós. O resultado não foi dos piores, visto que o barco estava bem pesado e ainda levávamos um bote de quase três toneladas pela popa.

Como durante a travessia, fomos informados pelo Flavio da Sala de Radio, que havíamos conseguido uma vaga na Marina da Gloria para a manhã seguinte, deixamos tudo pronto para a atracação logo cedo.

Dia 25 de Janeiro de 2013.

Entre as 07h00 e as 07h35 suspendemos, entramos na Marina da Gloria e atracamos na Vaga 01 da Orla B, onde o Falcão costuma nos receber em nossas muitas vindas ao Rio.

Nosso Log registrava 80.3 milhas navegadas, desde o Piratas.

 

 

domingo, 28 de abril de 2013

The Boat is on the Table!


Os estrangeiros estão chegando! Na realidade, estão aqui faz um bom tempo, utilizando estaleiros brasileiros como laboratorios, aprendendo nosso modo de se relacionar com as aguas, e se aprimorando no sentido de tropicalizar seus barcos, adequando-os ao nosso mercado.

De uns tempos para cá, as matrizes europeias e norte-americanas dos estaleiros, começaram a se movimentar, e com a aparente abertura de nosso mercado, desovaram aqui não somente os barcos acumulados no estoque (encalhados é uma expressão que não se deve usar), pela crise financeira internacional, mas também projetos de plantas industriais, que estão em fase de instalação e algumas até de funcionamento no Rio, São Paulo e Santa Catarina, principalmente.

Por outro lado, alguns estaleiros brasileiros – antes dedicados apenas aos barcos de recreio, resolveram atender a demanda de um outro mercado, e estão “batendo quilhas” de barcos de serviço, geralmente encomendados pela gigante estatal Petrobras ou por suas contratadas. São barcos de transporte de tripulantes, rebocadores, lanchas de apoio, barcos de mergulho e todo o tipo de embarcação de trabalho, geralmente de casco metálico e acabamento espartano, o que não colabora muito para que ganhemos conhecimento (Know-how) no competitivo mercado da construção de Super e Mega Iates, dominado pelos estaleiros do Hemisfério Norte, além de alguns poucos da Oceânia.

Esta situação não deve mudar nos próximos tempos, pois o petroleo vem tomando todos os espaços sob e sobre as aguas, visto que até algumas marinas tem tido a infeliz ideia de abrir espaço em suas vagas, para receber Barcos de Serviço ou mesmo de Transporte de Passageiros. A maioria de cascos metálicos, com defensas e balrroas de borracha, manobras às vezes complexas, cabos de amarração desproporcionais e tripulações não adaptadas ao novo ambiente.

Porém, uma segunda leva de barcos deve aparecer por aqui, não demora muito. Os Super e Mega Yachts, dedicados à operação de Charter, algo ainda inexistente, mas que deixa avidos seus operadores, visto que é um mercado quase virgem, e um destino ainda não trabalhado. No passado, recente ou não, vimos varios barcos gigantescos circulando em nossas baias, todos pertencentes a grandes empresarios das comunicações, informática e petroleo estrangeiros, mas poucos se comparados a pequenas ilhas do Caribe, onde marinas acotoveladas umas as outras, recebem estes gigantes multimilionarios, dedicados a mais luxuosa (e talvez cara) forma de turismo jamais criada, o Charter em Super e Megayachts!

Porém, nosso mercado não se manteve virgem por tanto tempo de forma inocente. A legislação brasileira criou uma serie de impecilios à operação deste tipo de barco, e a burocracia praticamente bloqueia sua penetração em nossas aguas. Não levando em consideração o aspecto de entrada, com finalidade comercial, o que já seria um problema a mais relativo à vinda destes barcos, sabemos que o ideal para os operadores, seria entrarem no Brasil como um inocente barco de passeio, ficando por aqui o tempo permitido, e realizando o Charter Comercial clandestino em nossas águas.

Porém, a quilha é mais embaixo, para que possam operar no Brasil, precisam ter uma empresa que os afrete por aqui, somente assim a Receita Federal vai permitir que operem em nosso litoral. Seus tripulantes, sempre estrangeiros, tem de obedecer às nossas regras de imigração e, como aquaviários estrangeiros, terão os sindicatos locais em seu portaló, exigindo uma cota mínima de tripulação brasileira, que infelizmente não tem a menor noção do que é tripular um iate de luxo, e bota muito luxo nisto.

As Marinas, as poucas que temos, não têm em sua maioria, a menor possibilidade de atender a este tipo de embarcação, que demanda um cais seguro, para atracação ao longo do costado (é assim que fazem na America do Norte), precisam de muita água de qualidade e boa pressão, fornecimento de diesel de qualidade e preferencialmente sem impostos. Quanto a energia, são necessarias ao menos duas tomadas de 100 Amp, uma para o ar condicionado e outra para o restante do barco, o que costuma bastar.

Como se isto não fosse o bastante, faltam fornecedores de bebidas, comida, reparos e tudo o mais que envolve uma logistica que precisa ser 100% à proa de falhas, pois o valor pago pelo aluguel, não permite erros. Na Europa e America do Norte, existem varias empresas que entregam em seu portaló todos os melhores rótulos de bebidas, das melhores procedências. Queijos, carnes, trufas frescas, pescados de todos os tipos, caviares, embutidos da melhor qualidade e conservas como pesto de nozes, atum e botarga de Favignana, antepastos de berinjela, além de frutas e verduras premium, que deixariam qualquer cozinheiro feliz.

Enquanto isto não vem, continuaremos alugando (por preços exorbitantes) barcos mal tratados, tripulados por pessoas mal vestidas, invariavelmente mal treinadas, geralmente mal remuneradas e que não falam nenhum outro idioma.

Por fim, esquecemos que estes barcos não irão nos contratar, pois nossos tripulantes raramente possuem habilitações de nível internacional, o que os impedirá de embarcar, restando lavar os barcos e realizar pequenos bicos. Assim, manteremos nosso padrão de destino exótico, quase colonial, onde toda a precariedade e natural simpatia são desculpas aceitas para nossa crônica falta de profissionalismo!

Cabe a Marinha do Brasil, reconhecer a existência do Iatismo Profissional no Brasil, adotando as categorias já existentes no mundo desenvolvido, e nos dando a chance de disputar com os estrangeiros, esta nova “abertura dos portos para as nações amigas”!

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Saco do Céu Nublado


A primeira vez que entrei no Saco do Céu, fiquei totalmente embasbacado! Foi no inicio dos anos 1980 e era o retrato mais próximo do paraiso em que alguém ainda vivo poderia admirar.

A mata virgem, fechada, sem quase sinal da raça humana ao seu redor, apenas um ou dois telhados de casas de pescadores. As aguas transparentes permitiam visualizar estrelas do mar a mais de sete metros de profundidade, e durante a noite – e principal motivo de assim ser batizado – podiamos ver o reflexo das estrelas na superficie vitrificada de suas aguas, bons tempos aqueles.

Para quem conhece bem aquele recanto, sabe que apesar do excelente abrigo, durante a primavera e o verão podemos ser surpreendidos por tormentas violentas, precedidas de inúmeras descargas elétricas, que culminam com chuvas torrenciais e rajadas muito fortes de vento, e eu mesmo já registrei perto de cinquenta nós de vento e chuva quase horizontal, numa noite tenebrosa perdida no tempo, mas ainda viva na memória. Amanhecemos com quatro veleiros enganchados em nossa amarra, cujos comandantes (sobreviventes de mais um encontro de pilotos da Varig) não conseguiam assimilar direito os fatos, naquela manhã de aparente forte ressaca.

Porém, os anos se passaram, os “castores” roeram varias árvores, pessoas depredaram algumas praias, surgiram inúmeros telhados de caçadores de riquezas e o Saco do Céu acabou Nublado, quase decadente, mas sem perder seu charme e seu poder de hipnotizar as pessoas que o visitam.

Alguns anos atras, escrevi para a Coluna Farol da Revista Nautica, um desabafo contra aqueles que não têm um mínimo de consciencia em relação à natureza que precisa ser preservada, sem querer cair em lugares comuns, alertava sobre o fato que aquele recanto em particular não é protegido pela natureza, no sentido de que sua orla interna não é formada por um enrocamento natural, como a maior parte daquela região, ou seja, voces não encontram pedras no perímetro interno e sim um barranco de fragil cobertura vegetal. O que acontece quando uma lancha entra ali em alta velocidade, é a formação de uma marola que vai atingir a orla, destruindo a borda do Saco, fazendo com que o barranco desmorone e o sedimento seja lançado no mar. Depois, este sedimento se acumula no fundo da pequena enseada, turvando suas águas e criando um fundo de lama mole, de péssima tensa. Este fundo não é bom para as nossas âncoras, às vezes nos obrigando a rocegar o fundo, em busca de uma pega melhor e isto faz com que os sedimentos levantem, mantendo as águas turvas como já mencionado.

Nos Estados Unidos existem areas sinalizadas com a seguinte expressão: NO WAKE AREA, ou seja: É Proibido Fazer Marolas! Mas em nossas águas seria impossivel, pois pessoas e até mesmo autoridades, entram até nas marinas em alta velocidade. Fica dificil convencer as pessoas que naquele santuario seria necessário entrar e sair em marcha lenta, sem marolas e sem bigode, e sinceramente não da pra entender como perder apenas uns poucos minutos de baixa velocidade poderiam fazer mal a alguem?!!

Não podemos também, deixar de perceber a enorme quantidade de casas e luzes ao redor do Saco de Céu, que não nos permitem mais observar as estrelas do firmamento refletidas da superficie. Em relação a isto, é fato que a vila de Jericoaquara no Ceará, se orgulha de não possuir iluminação pública, um de seus diferenciais e que ajudam a trazer mais e mais turistas. Se não concordam comigo, tudo bem. Lembremos então que provavelmente a totalidade das propriedades que se espalham pela orla não possuem tratamento de esgoto algum, assim como a imensa maioria dos barcos que ali trafegam e pernoitam, isto talvez lhes faça pensar um pouco.

Voltando a nossa campanha de conscientização geo-ecologica, fica registrado nosso apelo para que estes velozes pilotos reduzam a rotação de seus motores e controlem seus manetes para que mais destruição não seja feita, unindo assim o útil ao agradável, eles diminuiem a velocidade e em (boa) troca desfrutam do incrivel visual, acima ou abaixo da linha d’água!