quinta-feira, 24 de abril de 2014

Barcos para que te quero?!

Este texto, foi publicado originalmente em minha nova coluna no Portal da Revista Nautica (http://www.nautica.com.br/author/alvaro-otranto/) que irá tratar dos mesmos assuntos abordados por este blog, que deverá agora ser mais dedicado aos profissionais do Iatismo nacional.

Sabemos que os barcos já eram utilizados pelos seres humanos desde a pré-historia, quando pedaços de madeira foram unidos por cipós e se transformaram nas primeiras embarcações “construidas” de que temos notícia. Atualmente, processos ainda primitivos de escavamento de enormes troncos de árvores, são preparados com fogo e ferramenas rústicas, para fins de navegação, como os encontrados em várias partes do mundo, notamente por aqui mesmo.

A princípio, estas embarcações foram construidas com a finalidade de alcançar comida em outras localidades, somente acessíveis por mar ou isoladas por braços de rios ou algum espelho de água. Hoje em dia, embarcações gigantescas cruzam os mares em altas velocidades, transportando todo o tipo de carga, sejam combustíveis, alimentos, insumos e mesmo pessoas. O Iatismo, como sabemos, utiliza o barco como forma de prazer e satisfação, e divido as duas, pois o prazer é trazido pela beleza das paisagens, o sabor da comida e a qualidade dos serviços de bordo, mas a satisfação é algo mais abrangente, que se alcança pelo conjunto das atividades praticadas, o ambiente, a companhia e até mesmo o status que vem com o ter uma embarcação aqui chamada de esporte-e-recreio, mas que não traduz devidamente a feliz expressão inglesa: pleasure boat.

Como defensor das embarcações de cruzeiro, sejam elas a vela ou a motor, ergo aqui a bandeira de que o prazer precisa ser lento, pois se prolonga, e me perdoem a analogia capciosa, mas uma noite inteira de amor é bem melhor do que um encontro passageiro, do tipo “rapidinha”. O prazer de navegar vagarosamente, por baias e enseadas é intenso, pois permite que se desfrute de cada ângulo e detalhe. Quando cruzamos em alta velocidade, recebemos uma descarga de adrenalina muitas vezes descessária, pois o que se busca em um final de semana ou passeio de barco é o relaxamento e não a continuação da vida atribulada de uma grande cidade.

Este espaço será dedicado a idealizar, projetar, organizar e preparar um Barco de Cruzeiro a Motor destinado a acolher pessoas que pretendam realizar viagens ou mesmo morar a bordo de uma embarcação confortável e segura, que utilize a propulsão mecânica. Porém, que fique claro que desde o inicio deste tipo de navegação “amadora” a vela e os motores sempre estiveram juntos, e por muito tempo os barcos de propulsão mista foram os mais numerosos. Ainda hoje, os barcos do tipo Passagemaker utilizam uma pequena vela, seja para dar uma certa estabilidade como para auxiliar e economizar combustível em longas pernadas de ventos favoráveis. Não iremos considerar os velejadores como concorrentes, lutando pela mesma enseada, mas parceiros de modo de vida, que utilizam métodos diferentes para alcançar a mesma finalidade, que é viver a vida da melhor maneira possivel!

Barcos a vela têm suas vantagens, como o uso de propulsão limpa e até certo ponto infinita, mas o esforço físico necessário nas manobras, o desconforto de se navegar com o barco adernado por vários dias, o cozinhar e comer numa gangorra e ter de chamar seu banheiro de “camara de torturas” é algo duro, sem mencionar o lugar comum, conhecido por todos os que navegam:

“Um veleiro não sabe exatamente quando deixará um porto, e não tem a mínima ideia de quando chegara a seu destino”.

Pregamos aqui, um modo de navegar grandes distâncias, sem precisar da escolta de um navio-tanque, podendo programar suas partidas e chegadas com um mínimo de precisão, e desfrutando da maioria dos confortos da vida moderna, evidentemente obedecendo ao poder aquisitivo de cada proprietário de embarcação. No correr dos artigos, iremos notar que as semelhanças entre os barcos a vela ou a motor de Cruzeiro, obedecem a uma certa lógica comum e que a tradição de um pode auxiliar o outro a melhor se adaptar as dificuldades do dia-a-dia a bordo de um barco.

Adiante Navegando, será nosso lema e nosso destino!

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

VHF - Canal Ocupado


Quem ainda não se deparou, com pessoas de língua estranha, provavelmente chinês ou coreano, entupindo a frequência no Canal 68 do seu rádio VHF?

Na Baía da Guanabara notadamente, os operadores do Eco-21 e E-37, Iate Clube do Rio de Janeiro e Marina da Glória, respectivamente, tentam liberar a frequência, utilizada no Brasil pelo Iatismo, o problema é que esta não é uma regra geral e os rádios produzidos para o mercado Norte-americano ajudam a complicar as coisas.

Sabemos que nossos “irmãos do Norte” dominam o mercado náutico mundial.  Para se ter uma ideia, havia 12,5 milhões de barcos registrados em 2011, enquanto que no Brasil não passávamos de 400 mil, nesta mesma época. Portanto algumas regras que eles determinam, acabam influenciando os fabricantes de equipamentos, e esforços de poucos não costumam fazer frente ao gigantesco apelo do mercado americano.

A ITU, (International Telecommunication Union) é um órgão da ONU que orienta sobre as telecomunicações no mundo, mas isto acontece de forma diferente em cada país. Como exemplo, a FCC (Federal Communications Commision) a ANATEL dos Estados Unidos, determina o uso das frequências de maneira diferente de outros países.

Na prática, se você ligar um rádio VHF, irá verificar que no display, além do número do canal, aparece embaixo uma “colinha”, indicando qual a finalidade do canal em uso, porém esta indicação pode variar de fabricante para fabricante e depende até do país para que foi produzido, notadamente os EUA.

De todas as possíveis variáveis, alguns canais são internacionalmente respeitados. No Canal 16 aparece sempre “Calling” por ser o Canal Internacional de Chamada; assim como no canal 70 vai aparecer DCS, um canal destinado exclusivamente as chamadas Digitais Seletivas, que faz parte do sistema GMDSS, e permite que se chame uma determinada embarcação, como se fosse uma chamada de celular, utilizando-se o MMSI, um número que identifica cada estação.

Outros canais não são tão respeitados. O Canal 06, reservado a comunicações de segurança e resgate, ou o Canal 13 que pode ser utilizado apenas entre as pontes de navios que estejam realizando entrada ou saída nos portos, mas muitas pessoas não têm sequer ideia disto. No Brasil os navios costumam utilizar o Canal 14 para comunicação interna entre as estações de manobra, assim como a Praticagem costuma utilizar o Canal 11, mas nenhuma destas regras é de uso ou conhecimento geral, e muita confusão acontece no ar.

Agora, quando seguimos para o Canal 68, nos deparamos com a indicação “Ship-Ship”, ou seja, destinada a comunicação entre navios, ficando reservados para “Pleasure” (Recreio), os canais 69 e 71. Com isto se forma uma confusão local, pois muitos dos Iate Clubes no Brasil, utilizam tradicionalmente os canais 68 para chamada e 69 para tráfego, entre suas estações costeiras de apoio e os barcos afiliados ou não. Porém, os navios utilizam o Canal 68 para comunicação entre navios, e é muito comum que os oficiais façam uso desta frequência para “colocar o assunto em dia” com colegas conterrâneos, ou mesmo para trocar qualquer tipo de informação. Um verdadeiro canal de “bate-papo”.

No passado, contávamos com a Dentel, uma espécie de Delegacia das Telecomunicações, que não só ordenava o uso das telecomunicações em nosso litoral, mas também as fiscalizava, com força de polícia, contando com estações rastreadoras portáteis e atuando na limpeza das frequências, absurdamente utilizada por alguns. Sem falar nas estações de radio clandestinas, que prejudicam o seríssimo tráfego de radio entre aviões e aeroportos, mas vou me ater apenas ao uso marítimo.

Certa vez, em Angra, ouvi um restaurante fazendo propaganda de seu cardápio especial do Dia das Mães, no Canal 16 do VHF. Neste caso, havia várias infrações gritantes:

·          A Operadora não era licenciada, caso contrário saberia que não se pode utilizar o VHF para propaganda;

·          Fazer propaganda no VHF, como dito, é proibido – no canal 16 então? Um absurdo!

·          A Estação era clandestina, pois ficava numa ilha e pertencia a um restaurante, e não a uma embarcação;

·          Esta pouca gente percebeu no dia, mas apregoar que seus pratos seriam preparados com “camarões frescos”, durante o período do defeso do valioso crustáceo, também é indício de crime ecológico. Uma lambança!

Outra má recordação de uma determinada época na Baía da Ilha Grande era a do conhecido “Jacaré Cabeludo”, uma pessoa que invadia o Canal 68 com transmissões agressivas e cheias de palavrões, me lembro bem de um dia, em que uma forte tormenta de Sudoeste atingiu a região, e um veleiro em perigo não conseguia pedir socorro devido à incessante transmissão do referido operador. Conta a lenda que ele foi localizado, demitido do barco e expulso da marina em que trabalhava, mas ninguém sabe ao certo de quem se tratava. Não deixando saudades.

Transmissões ofensivas são uma constante no Canal 16 em plena Baia da Guanabara, frequência praticamente impossivel de ser utilizada naquela área, e apenas uma ação nos moldes do antigo Dentel poderia reverter o quadro de desrespeito e irresponsabilidade que invade nossas frequências.

Quanto ao uso do Canal 68 pelos pobres e saudosos tripulantes dos navios, não há muito a fazer, pois remamos contra a maré e seria mais fácil adotar o que quase o mundo todo faz, passando a operar nos canais “Pleasure”, 69 e 71 e acabando com uma contenda desnecessária.

terça-feira, 9 de julho de 2013

Quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013


Quinta-feira do Rescaldo!
 
Mais uma noite bastante tranquila, sem vento ou chuva.

O barco permaneceu no fundeadouro do Campinho.

Durante o dia, alguns passageiros seguiram a Camamú para um passeio, mas voltaram um pouco frustrados, devido a sujeira, a falta de estrutura e aquilo que sempre nos espera em locais pobres e mal cuidados. Sem falar que um dia depois do Carnaval, não sobrou “pedra sobre pedra” na região!

O almoço à bordo foi Salada Verde, Camarão com Moranga (pois servimos em panela de barro) e o tradicional pernambucano: Bolo de Rolo.

Quarta-Feira de Cinzas, 13 de Fevereiro de 2013


Visita a Taipús

Foi uma das poucas vezes que não choveu de madrugada!

Dia radiante, de muito sol, pouco vento e um calor de matar!

Os passageiros partiram para um passeio de van pelas praias de fora, e acabaram almoçando em um restaurante nas proximidades da Ponta do Gavião, o conhecido Bar da Jô. Muitos caminharam pelas praias, aproveitando o dia em terra.

O cozinheiro e eu fomos a Camamú, tentar repor alguns viveres, mas não encontramos nem mesmo, algo simples como água mineral! Frutas, pães e verduras... nem falar. Saudades do Mediterraneo, onde a Mansueto trazia em pouas horas, qualquer produto que fosse necessário! De figos gigantescos a Trfas negras do tamanho de bolas de tenis...

O caminho entre o barco e a Vila histórica de Camamú é bastante interessante, mas rasa demais. Acredito que o potencial turístico de toda a região é enorme, mas a falta de estrutura, e de um mínimo de canais dragados, dificulta e torna navegar por aquelas bandas, um perigo danado.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Segunda de Carnaval: 11 de Fevereiro de 2013


Maraú, Sem Cais e nem Carnaval?!
 
A noite foi tranquila, e nenhum tambor ou o mínimo rumor do Carnaval foi ouvido à bordo, Maraú estava apagada e praticamente deserta!

Choveu de madrugada, mas apenas uma pancada isolada.

De tarde, nossos passageiros saíram de Verde&Rosa para um passeio a Cachoeira de Tremembé, algumas milhas rio acima, retornando perto das 17h00. O passeio costuma ser muito interessante, pois é possivel entrar com alguns barcos dentro da queda de água da cachoeira. Numa das vezes que lá estivemos, conseguimos comprar uns dois quilos de pitus, catados pela garotada que brinca o dia todo, ao redor da cachoeira.

O almoço foi salada verde com couve-flôr, muzzarela de búfala e tomate cereja. Seguida de Tortelloni recheado de alcachofra com molho de funghi porcini trufado. Para fechar, a sobremesa foi Tiramissú a moda da Vinheria Percusi.

À noite, nosso cozinheiro assou um Bolo de Fubá, e a ceia teve grande aceitação.

Domingo de Carnaval: 10 de Fevereiro de 2013


Apostando Corrida com um Veleiro!
 
As 04h00 caiu um rápido dilúvio, com muita chuva e vento!

Pouco antes das 06h00 da manhã, suspendemos nossa âncora e seguimos para Camamú.

Havia uma forte marejada, próximo da Barra do Morro de São Paulo, e balançamos um bocado. O Índigo saiu praticamente no mesmo horário, mas a falta total de vento, o fez se distanciar cada vez mais, e em pouco tempo colocamos uma grande distância à frente. Se o vento dos últimos dias tivesse se mantido, ele fatalmente iria nos passar em muito pouco tempo, pois cruzamos a 9 ou 10 nós, e eles com sua imensa área vélica e linha d’água, iria bater nos 15 nós, fácil!

Fechamos as primeiras mil milhas de viagem, desde nossa partida de Angra.

As 09h30 demandamos a sinuosa Barra de Camamú, e notamos vários catamarãs franceses circulando pelas imediações. Tive a impressão que eles não sabiam bem para onde ir, e gostaram de nos ver chegando, pois logo que fundeamos, vários vieram parar ao nosso redor. As 10h50 conseguimos fundear na segunda tentativa, pois o fundo em frente ao Campinho, não costuma ter uma pega muito boa.

O proprietário do Índigo, que chegou algum tempo depois, veio almoçar conosco e, neste dia, servimos uma Feijoada Completa.

No final da tarde, e aproveitando a maré, seguimos para Maraú, aonde chegamos as 17h45, sob um sol baixo, porém bastante forte. Largamos 35 metros de amarra, em um fundo de 10 metros, parados nas proximidades do cais da cidade, cujo excelente flutuante, que tantas vezes já havia nos servido, jazia afundado no fundo do rio, uma pena!

À noite, lanche leve para todos.

Sábado de Carnaval: 09 de Fevereiro de 2013


Morango no Nordeste!
 
Pela manhã, estava mais calmo e com céu limpo.

Logo cedo, partiram no bote, com o prático Bobó para a Ilha de Boipeba e o Rio do Inferno, como nosso barco de apoio, retornando apenas no meio da tarde, devido a maré.

Enquanto passeavam, paramos nosso gerador, apagando o barco todo e fizemos a necessária revisão e manutenção preventiva, pois era agora nossa única fonte de energia. Como as horas dos motores também pediam, foi realizada a troca de filtros e lubrificantes dos nossos dois MAN de dez cilindros e 1050 HP cada.

Próximo das 16h00 suspendemos o ferro, retornando para a região do Curral. A principio, tentamos fundear próximos do veleiro Índigo, nossos velhos conhecidos, mas as condições na Gamboa (mais uma vez) tornaram impossível um fundeio seguro. O fundo naquela área é como um serrote, a sonda vai de cinco a vinte metros e não se consegue um fundo regular para largar a âncora. Fora isto, com a forte correnteza nas vazantes, o barco atravessa de lado para o vento e o conforto vai pras cucuias!

Acabamos largando âncora no Curral, nos últimos raios de luz do dia, e o transito de pequenas embarcações que iam e vinham de Valença, Galeão, Cairu e outras localidades rumo a Gamboa e a Morro de São Paulo, em pleno Carnaval, era intenso e assim foi durante a noite toda. Muitos passavam tão rentes a nosso barco, que achei por bem deixar todo o convés iluminado.

Como o almoço ficou um pouco abaixo do esperado, fizemos um jantar mais caprichado: bruschette (brusquetas) de caponatta de entrada, e Risoto de arroz arbório com shimeji e shitake ao vinho branco. A sobremesa foi torta de morango.