quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Já dizia Júlio Verne!


Por Alvaro Otranto

Melhor beber um champanhe a 20 mil léguas submarinas que fundeado ou atracado à Marina de Portofino? Sem chance!

Recentemente, publiquei um texto sobre a última moda entre os milionários, que seria a armação de Shadow-boats. Porém, agora aparecem com mais uma boa ideia para tirar dinheiro de gente rica, diga-se muuuuito rica: Mega-iates Submarinos!


Um escritório de projetos está se propondo a realizar o sonho submarino de qualquer mega-multimilionário-excêntrico da face da terra, a construção de um submarino de recreio de até uns 300 metros de comprimento.

Por se tratar de um produto extremamente diferenciado, os detalhes operacionais não estão disponíveis aos meros fuçadores de internet, será necessário agendar uma data e local para um contato direto com os responsáveis desta façanha do design.

Me recordo algumas cenas do filme realizado pelo estúdio Disney na década de 1960, onde ahistória do Capitão Nemo a bordo do Nautilusse desenrolava, éramos levados a imaginar criaturas fantásticas e gigantescas à enormes profundidades, tudo sob a benção do autor e ficcionista Júlio Verne, um homem que quase adivinhou o mundo em que vivemos hoje. O Nautilus tinha um design bastante rebuscado, cheio de serrilhados e com muito conforto a bordo, me lembro de enormes cadeiras de espaldar alto, mobília cheia de rococós e tapetes vermelhos por toda parte do piso. A tripulação se vestia como em um iate de luxo e ao que parece, é este sonho que querem fazer renascer sob a égide da Migaloo, escritório austríaco que propõe este novo rumo para o iatismo... para baixo!

No que diz respeito a uma das finalidades do iatismo, que é o “ver e ser visto”, como ficaria? Montaríamos tendas sobre o convés, faríamos construir marinas de grande calado para receber estes torpedos gigantes? As mesmas passariam a ter rebocadores de grande torque. E o tráfego? As autoridades permitirão que submarinos entrem de suas aguas a qualquer momento e em qualquer local? A que profundidade deverão circular estes bólidos submarinos, que cruzam a mais de vinte nós em total silêncio, pelas profundezas dos oceanos.

O M2, seu menor projeto, possui apenas (como se fosse pouco) 72 metros, mas o M7 pode ter mais do que 283 metros, ou 930 pés; maior que qualquer iate convencional jamais construído.

Para não exagerar, peguemos o modelo intermediário M5. Ele dispõe de heliponto, garagem para todos os tipos de brinquedos incluindo uma comporta para operar dois mini submarinos de 11 metros de comprimento. Adega, sala de jogos e de cinema, spa, ginásio, banheira ao ar livre (quando na superfície, é claro). Já ia esquecendo da biblioteca (é bom ter algum livro à mão, pois abaixo dos dez metros de profundidade as coisas costumam ficar bem escuras). Entre as 32 pessoas que pode transportar, poderá levar o casal proprietário em sua cabine de 300 metros quadrados e mais seis outros casais em Suítes VIP de 65 metros quadrados cada uma.

A bem da verdade, com um calado de sete metros, vai ficar difícil arrumar local em alguma marina badalada, ainda mais com um comprimento de 443 pés! Fico imaginando a tripulação, alguns submarinistas russos aposentados, todos acostumados a ambientes claustrofóbicos.

Quanto a qualidade do produto a ser entregue, pode ficar tranquilo, pois a tecnologia é provida pela empresa Starkad Technologies, não confundir com a Stark Inc. do filme “Homem de Ferro”, pois esta não fica na Califórnia, mas na Estônia (Põhja-Ranna, Vääna-Jõesuuküla, Harkuvald, Harjumaa, 76909). Pode parecer brincadeira, mas a Estônia é considerada um “tigre-báltico”, vizinho da Suécia que vem se tornando um centro internacional no que diz respeito a eletrônica de telecomunicações, incluindo um polo bancado pela OTAN, de combate a invasões de redes, provavelmente devido à sua proximidade da Rússia.


Deixando a política de lado, considero que esta moda vai demorar muito a pegar, mas não descarto que alguém resolva fazer construir algo do gênero, apesar da pouca ou nenhuma praticidade deste tipo de embarcação. Particularmente, gastaria menos construindo um iate convencional, ou melhor, dois! Um para o Caribe e outro para o Mediterrâneo, como dezenas de milionários o fazem atualmente, e desde os anos 1980, quando um famoso milionário mexicano encomendou o Inca e o Asteca, dois iates iguais ao Highlander do empresário Malcolm Forbes, que estava em construção no estaleiro holandês De Vries, na época ele justificou que cada um ficaria de um lado do Atlântico, como comentado.

Agora, para quem prefere nem ver e nem ser visto, talvez algum traficante, pode dar uma olhada no site abaixo, procurando por algo que atenda às suas necessidades. Em tempo, eles também possuem outros projetos, como o de plataformas oceânicas de lazer. Aparentemente, eles transformam uma plataforma de petróleo em um resort de alto-mar, e podem construir sua ilha artificial particular, vale uma olhadela!


terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Sombra Chic

Por Alvaro Otranto

Alguns posts atrás, publiquei um texto sobre os “barcos de apoio” conhecidos lá fora por Chase Boats, agora volto ao assunto com algo que fica difícil de batizar em português, de uma forma que não seja “Iate ou Navio de Apoio”, conhecidos lá fora por Shadow Boats.

O chamado Shadow ou SupportVessel nada mais é do que um outro iate, que tem a função de complementar os espaços e a logística do barco-mãe (Motheryacht). Criado inicialmente para dar suporte a Iates que realizavam expedições, passou a ocupar um lugar de destaque no lazer de seus proprietários.

Shadow Yacht em operação

Tudo começa com a construção ou adaptação de um iate ou outra embarcação à nobre função de apoio de um iate-mãe. Dentre suas funções estaria transportar equipamentos e embarcações de menor porte, a fim de atender as necessidades do Iate onde o proprietário e convidados ficariam acomodados. Portanto, sem a necessidade de espaçosas cabines e salões, este volume passaria a ser dedicado a alojar uma quantidade enorme de brinquedos flutuantes, como botes de apoio, lanchas de pesca, motos-aquáticas, infláveis, hidroaviões,  submarinos, pranchas de todos os calibres além de oficinas de reparo, paióis para peças sobressalentes, câmaras frigorificas, despensas para alimentos, lavanderia, ambulatório,spa, academia, central de comunicação, oficina, alojamento para os tripulantes de ambos, mas principalmente algo complicado de se instalar e operar em um “barco-mãe” que seria um amplo heliponto, apto a receber e até estivar e transportar aeronaves de diversos tamanhos.

Os estaleiros europeus não perderam tempo e lançaram vários projetos de barcos de apoio, de 18 a mais de 100 metros de comprimento, com opções dedicadas a todos os tamanhos e necessidades. Porém, não se iluda, estes barcos não são rebocadores forrados de fórmica e cheirando a oficina, são iates diferenciados que possuem elevado padrão de conforto, mesmo não realizando o pernoite do proprietário, pois o mesmo o utiliza como extensão de seu Iate principal, contando com ele para diversões aquáticas, spa, acomodação de mais hóspedes e mesmo para embarque e desembarque através de seu já citado heliponto.

De forma pouco mais econômica, é possível transformar um pequeno navio de apoio e suprimento de plataformas de petróleo, que chamaremos genericamente de Supply Vessel, em um Superyacht Support Vessel. Vale dizer que esta transformação não é das mais baratas, além de herdar equipamentos de propulsão de necessidade duvidosa, como inúmeros motores destinados ao DP-Posicionamento Dinâmico e um consumo de combustível que costuma ser bastante elevado; como vantagem estes navios já nascem atendendo as mais duras regras de segurança e possuem enormes espaços, o que permite instalar o já comentado heliponto com toda a estrutura necessária, assim como garagens e sistemas de lançamento para todo tipo de veículo.

O Thunderbird 2 é utilizado para lançamento de um mini-submarino de passeio

Um fator importante é que o custo de construção de um Iate luxuoso tradicional é bastante elevado, e investir este capital em área construída dedicada exclusivamente ao proprietário e convidados, deixando as áreas técnicas a bordo do barco de apoio, seria o mais inteligente a se fazer. Com isto, sobra mais espaço para piscinas, áreas gourmet, restaurantes, bares, boates e salas de cinema, deixando a oficina, paióis e outros espaços menos cotados de fora.

Apesar de ser uma moda recente, anos atrás visitou a Marina da Gloria a pequena frota de um empresário norte-americano que por aqui passou algum tempo. O barco-mãe tinha algo como 120 pés, e se fazia acompanhar de um trawler de 90 pés, equipado com oficina e despensa, e ainda escoltava uma lancha de pesca esportiva de 70 pés, cuja tripulação se dedicava a pescar Marlins ao redor do mundo, no sistema tag-n-release (pesca-etiqueta e solta, em tradução livre). Assim como ele,hoje em dia vários outros Armadores adotaram este sistema de “flotilha” e o próprio Roman Abramovich encomendou dois SeaAxe’s de 50 metros cada, para apoiar seu Megayacht Eclipse de 162,5 metros (533 pés). Estas “pequenas” embarcações tem velocidade máxima de 28 metros e atendem, segundo consta, às necessidades do armador.

Um é bom, dois é melhor ainda!

A pratica é que o SupportVessel chegue ao local da diversão antes da chegada do Iate-mãe, assim os convidados já irão dispor dos brinquedos quando chegarem ao destino, e não terão de aguardar a tripulação “montar a praia” após terminada a manobra de fundeio.

No Brasil,que a bem da verdade não possui ainda muitos Superiates em suas águas, não se tem notícias que indiquem que algum SSV estará em operação nos próximos meses, mas certamente algo semelhante deverá aparecer por aqui em breve. Levando em consideração que os iates produzidos aqui costumam ter pouco ou nenhum espaço dedicado a manutenção, estocagem de peças e alimentos, sem falar na pobreacomodação de tripulantes, nada impede que possamos identificar lanchas mais antigas, modificadas e passando a servir de apoio para iates de maior porte. Nelas, poderiam ser guardados motos e pranchas, botes e peças, alimentos e bebidas além de permitir até o descanso de tripulantes que passaram a noite acompanhando turmas de jovens em baladas, e que de dia precisam se recuperar para a próxima noitada, enquanto seus pares atendem aos proprietários e convidados de outras gerações, durante o dia.

A bem da verdade, alguns anos atrás uma família de empresários brasileiros comprou e reformou uma grande escuna, que passou a operar uma enorme e muito bem equipada cozinha, apta a atender ao grande número de familiares e convidados dentro de sofisticados padrões gastronômicos. Ela se posiciona em algum lugar da Baia da Ilha Grande e a cada momento um dos barcos da família recorre a ela para consumir alimentos, bebidas e conforto, utilizando-a como um tipo de barco-restaurante privado, que presta apoio especializado a todos. No caso do SSV, eles viajam com o barco-mãe para outras regiões, prestando o suporte logístico necessário a frota, permitindo uma experiência única a seus proprietários.

Um transportador de Flotilha

Seria como enviar o barco de apoio a Fernando de Noronha e ao chegar, você teria um pequeno submarino à sua disposição, assim como uma lancha de pesca e um bote para operação de mergulho autônomo. Caso necessitasse, poderia utilizar o estoque de combustível e agua do barco de apoio e ainda desembarcar (com sorte) um quadriciclo na praia do Porto. Isto sem falar em SUP’s, bicicletas de trilha e até um Ultraleve, tudo para seu deleite.

Ao que parece, este mercado não tem mesmo limite. O que começou com um pequeno bote de apoio, depois virou um Chase e agora cresceu para um Navio de Apoio, também inclui enormes flutuantes rebocáveis, verdadeiras ilhas artificiais onde cantos-gourmet se misturam com piscinas e toboagua gigantes. Quem sabe, no futuro, um magnata deste não vai comprar e adaptar um Porta-aviões, a fim de poder pousar seu jato em seus giros ao redor do mundo.

Mesmo nascendo à sombra de um grande Iate, estes barcos já possuem luz própria e um lugar garantido no mercado, pois aliam mobilidade, estilo, segurança e permitem o acesso ao que há de mais moderno em termos de diversão. 

Tudo em nome de um Mar de muito prazer!


domingo, 17 de janeiro de 2016

NÁUFRAGOS FAMOSOS III

por Alvaro Otranto

Por incrivel que possa parecer, dentre os maiores sobreviventes encontramos alguns dos maiores trapalhões e sortudos dos Sete e outros mares. Alguns deles deveriam ter ficado 171 dias no mar, o que seria mais apropriado às suas historias.

100 dias: Richard Van Pham, o reincidente!

 

Richard Van Pham, natural de Long Beach, California, tinha 62 anos, quando saiu para uma pequena travessia rumo a Ilha de Catalina. A viagem que deveria durar três ou quatro horas foi radicalmente prolongada devido a uma tempestade. O barco perdeu o mastro, as antenas de radio e depois o motor. Impossibilitado de retornar, foi levado pela correnteza e permaneceu a deriva por mais de três meses.

Conseguindo capturar uma tartaruga, utilizou-a como isca para aves que tentavam pegar os pedaços de carne presos ao convés. Ele conseguiu destilar agua com a luz do sol, bebendo o produto e ainda utilizando o sal para conservar carne. Chegou mesmo a cozinhar gaivotas utilizando parte da madeira do barco como combustivel numa fogueira improvisada.

Todos os dias ele vigiava o horizonte a procura de terra ou de outro barco, mas sem sucesso, até que certo dia foi visto por um pequeno avião que notificou as autoridades e algumas horas depois foi resgatado após quase quatro meses no mar.

Devido à fama conseguida pelo seu admiravel feito de sobrevivência, acabou recebendo em doação um barco novo, equipado com tudo o que havia de mais moderno em equipamentos de comunicação e navegação.

Pasme, cerca de dois anos depois, foi encontrado novamente a deriva, após apenas alguns dias de desaparecido, porém sem sinal dos caros equipamentos que havia sido presenteado. Após o resgate, a US Coast Guard o multou por não possuir nem ao menos o equipamento obrigatorio a bordo.

117 dias: Maurice e Marilyn Baily

Marilyn e Maurice partiram de South Hampton num mês de Junho de 1972, em seu veleiro de 31 pés, com o plano de emigrar para a Nova Zelândia. Em fevereiro do ano seguinte passaram pelo Canal do Panamá e uma semana depois enquanto navegavam pelo Pacifico, foram atingidos violentamente por uma baleia. Pelo enorme rombo a água entrava com violência, e imediatamente inflaram sua balsa de abandono e seu bote de apoio.

Rapidamente lançaram para os mesmos tudo o que puderam salvar, levando algumas latas de comida, um fogareiro a gás, carta náutica, bussola, um reservatório de água, passaportes e um estojo de reparo de bote. A bordo e com os dois barcos amarrados entre si, acompanharam o naufrágio de seu veleiro, até então sua casa.

Nos primeiros dias comeram os alimentos em conserva, porém depois se alimentaram de aves marinhas, tartarugas e peixes que conseguiram pescar com equipamento improvisado. As chuvas lhes forneceram água.

Durante o tempo em que estiveram a deriva, contaram sete navios passar ao largo sem ve-los. Os dias se tornaram semanas e depois meses, que foram sendo vencidos. Suas roupas se gastaram, seus infláveis de deterioraram e esforços para mante-los inflados eram contínuos. Feridas se abriram em suas peles ressecadas pelo sol e sal.

No dia 30 de Junho seu martírio chegou ao fim, quando um barco de pesca Coreano viu o pequeno ponto escuro no vasto oceano e resolveu inspecionar de mais perto. Ao se aproximar laçaram a balsa e encontraram em seu interior o casal desmaiado, provavelmente em seus últimos minutos de vida. Cada um perdeu mais de 20 quilos e se encontravam totalmente anêmicos, desidratados e em confusão mental, eles haviam derivado mais de 1.300 milhas.

133 dias: Poon Lim

Poon Lim (25) foi o recordista de sobrevivência no mar por quase sessenta anos. Embarcado em um navio mercante britânico como taifeiro (um tipo de garçon), partiu de Cape Town no dia 23 de novembro de 1942. Torpedeado por um submarino alemão apenas alguns dias após a partida, viu seus 53 companheiros perderem a vida, no rápido naufrágio.

Tendo se atirado antes do afundamento, se manteve a superfície na esperança de achar algum dos barcos salva-vidas. Após quase duas horas pode localizar um, embarcando exausto.

A bordo encontrou um pequeno suprimento de água, biscoitos de ração, alguns foguetes e uma lanterna. Ele resolveu manter seu consumo em apenas dois biscoitos por dia e alguns goles de água, a fim de sobreviver por cerca de um mês. No final do primeiro mês, e tendo avistado vários navios que não o viram, concluiu que teria de sobreviver até que chegasse a algum ponto de terra.

Ele pescou utilizando um pedaço de fio e um pedaço de biscoito como isca. Após pegar o primeiro peixe, começou a utilizar parte dele com isca, e assim sucessivamente. Conseguiu pegar aves marinhas e tubarões, bebendo seu sangue para complementar a pouca água de que dispunha. No melhor estilo naufrago, fez marcas na borda da balsa, para controlar o tempo de sobrevivência e nadava duas vezes ao dia, a fim de não perder a capacidade física (somente um oriental iria tomar este cuidado).

No dia de numero 131, notou uma mudança na coloração da água, aves marinhas e algas, indicando que estaria próximo de terra. No 133º dia ele viu uma pequena vela no horizonte, que veio em seu auxilio. Ele esta nas proximidades da “nossa” foz do Rio Amazonas, e havia derivado todo o Atlântico Sul e já beirava outro hemisfério.

Neste enorme período, ele perdeu apenas 10 Kg e manteve sua saúde inalterada, não necessitando de apoio para caminhar após seu resgate.

147 dias: Os Sobreviventes da Caixa de Gelo

Foto tirada pelo Avião de resgate

Em um dia 23 de Agosto, um barco de pesca Tailandes de apenas dez metros, com cerca de vinte tripulantes rompeu o fundo ao enfrentar mares revoltos ao largo da costa australiana. Dezoito deles se perderam no mar e dois nativos de Burma conseguiram se salvar, entrando em uma grande Caixa de Gelo.

A tormenda que atingiu a fragil embarcação foi o Ciclone Charlotte com ventos de mais de 50 nós, e por muita sorte a caixa não emborcou nestas condições de mar. Por ser a estação das monções conseguiram sobreviver devido à chuva que caia diariamente, pois o único alimento que tiveram foram os peixes que estavam no interior da geleira.

No dia 17 de Janeiro, um avião da Alfandega Australiana os localizou durante um voo de rotina, enviando um helicoptero de resgate. Após serem tratados de desidratação, anemia profunda e queimaduras de sol, foram enviados de volta a suas familias.


300 dias: Pescadores Mexicanos

Lucio Rendon, Salvador Ordonez e Jesus Eduardo Vivand, e mais dois companheiros, partiram em uma baleeira de 25 pés para uma pescaria de três dias, no inicio de outubro de 2005, do porto de San Blas Nayarit, México.

Após lançar seu equipamento de pesca, voltaram ao litoral e comemoraram no aguardo de uma grande pescaria (coisa de latino). No dia seguinte, retornaram para retirar o equipamento de pesca e nada encontraram. Rodaram algumas horas atrás do caro equipamento, e acabaram ficando sem combustível. Como estavam muito longe de terra, não puderam remar, e os ventos ajudados pela correnteza levaram o barco para longe do litoral.

Eles tinham suprimentos para uns quarto dias, após este período começaram a passar muita sede e fome, permanecendo sem comer e beber nada. No terceiro dia após o fim dos víveres, começaram a beber água do mar, o que os fez apenas piorar. No dia seguinte, começou a chover e com o auxilio dos tambores de combustível que foram lavados com água do mar, puderam recolher cerca de 200 litros de água. A fome continuava intensa e a primeira refeição que conseguiram foi provida por uma tartaruga que passou ao lado do barco. Ergueram o animal e cortaram-lhe a cabeça recolhendo e bebendo seu sangue, e depois dividiram sua carne. Dois dos companheiros não conseguiram comer a carne crua e acabaram morrendo de fome, antes do final de novembro.

Eles continuaram caçando tartarugas, somando 103 animais até a data do resgate. Caçaram aves marinhas, e com o auxilio de uma ferramenta improvisada rasparam as cracas que haviam aderido ao casco e as utilizaram como isca para pequenos peixes, que foram utilizados de isca para peixes maiores completando a cadeia alimentar em seu modo mais primitivo.

Por precaução salgaram a carne de peixes e tartarugas, guardando para quando não pudessem pescar. Acreditasse que não morreram de escorbuto, pois pequenas quantidades de Vitamina C podem ser encontradas na carne crua e visceras de peixes e outros animais.

O barco derivou até 9 de Agosto de 2006, quando foram detectados pelo radar de um pesqueiro de Taiwan. O resgate os encontrou bastante magros, mas ainda saudáveis. Eles estavam a 200 milhas ao Norte do litoral da Austrália, e singraram 5.500 milhas através do Pacifico.

No dia 25 do mesmo mês, os integrantes Jesus, Salvador e Lucio (que significa Luz ou Iluminado) foram recebidos em sua terra natal, festejados como um milagre divino.

390 dias: José Salvador Albarengo, ganhou mas não levou!


Nosso recordista, um pescador salvadorenho de 37 anos foi encontrado nas Ilhas Marshall em estado de confusão mental. O relato dele trouxe o fato que havia passado cerca de 13 meses no mar, pois afirmou que seu barco quebrou no litoral do México tendo derivado mais de 5 mil milhas. Durante este periodo ele se alimentou de tartarugas, aves marinhas e peixes apanhados com as mãos, bebendo até mesmo sua propria urina.

Ele havia saido em seu barco de apenas 23 pés para pescar com um jovem, e foi arrastado de sua area habitual por ventos fortes. Com a quebra do motor permaneceu sem conseguir chamar a atenção de outros barcos, até ser arrastado pelas correntes. Cerca de um mês depois da quebra, o rapaz que o acompanhava faleceu de fome e sede.

Sua historia, porém ainda não foi aceita pelas autoridades, que desconfiam que ele na realidade foi utilizado como “mula” de drogas, entre o México as Ilhas Marshall, onde o consumo de cocaina é liberado, mas o tráfico não! Seu estado clínico foi considerado “irreal” pelos médicos, pois nem queimaduras de sol ele tinha e gozava de boa saude ao ser encontrado (meio gordinho como se vê na foto).

É pratica comum entre os traficantes, “absorver” alguns dos pequenos barcos que levam as drogas do litoral do Mexico para a embarcação-mãe, que ira fazer o transporte oceânico da droga. Muitas vezes os botes são embarcados e transportados a fim de facilitar o desembarque em seu local de destino. Este fato, aliado a complicações anteriores do sobrevivente com a justiça, deixam ainda muitas dúvidas no ar e no mar...



quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

NÁUFRAGOS FAMOSOS II

Seguimos com nossa lista de sobreviventes, incluindo agora várias ocorrências da Segunda Grande Guerra, como as abaixo mencionadas. Sabemos, porém, que centenas de outras devem ter ocorrido, mas seus participantes não lograram exito e infelizmente não temos seus relatos salvos ou registrados.

20 dias. Sessenta e Sete Marinheiros Britânicos miraculosamente sobreviveram por 20 dias, durante a Segunda Grande Guerra quando seu navio foi torpedeado por um submarino alemão. Eles derivaram por 1.200 milhas em quarto barcos salva-vidas com apenas biscoitos, uvas passas e peixe cru pescado com as mãos. Com apenas três mortos, vieram dar na costa de Antigua, em fevereiro de 1943. Porém, para que esta conta feche, a corrente deveria manter a velocidade de 2,5 nós durante todo o tempo, o que é muito pouco provável. Outro naufrago, Steven Callahan precisou de 76 dias (veja na próxima postagem) para derivar 1.800 milhas nesta mesma região. O mais provável é que a posição do naufrágio do navio não tenha sido bem determinada, quer seja pelos recursos da época, quer seja por esta informação não ser de conhecimento geral da tripulação, ainda mais durante a guerra. A maior virtude foi o número de sobrevivêntes e as pouquissimas perdas. Coisas da disciplina britânica, já registrada em outras ocasiões, como na fantastia historia do Endurance.

20 dias: O piloto militar Eddie Rickenbacker e sua tripulação faziam um voo do Hawai para uma base no Pacifico Sul quando seu avião caiu no oceano. Os oito tripulantes sobreviveram por 20 dias em três balsas infláveis com apenas algumas barras de chocolate, um punhado de laranjas e uma linha com anzol. Durante o tempo à deriva, perderam apenas um membro do grupo devido à fome.

38 dias: Dougal Robertson
Os mais impressionantes sobreviventes dos “tempos modernos”


Com a esposa, três filhos (um de 18 e gemeos de 12 anos) e ainda um carona, perderam seu barco, a Lucette, após colidirem com um grupo de baleias proximos às Galapagos. Conseguiram lançar sua balsa e um pequeno barco de apoio, no pouco tempo que tiveram para abandonar seu barco de madeira.  Após a deterioração da balsa, acomodaram-se apenas no bote Ednamair e com uma armação de fortuna, e rumaram de volta para a America do Sul, utilizando conhecimentos bastante apurados de navegação.

Neste período se alimentaram de algumas aves, peixes voadores e de varias tartarugas, o que lhes salvou a vida. A pouca agua que salvaram do naufragio logo acabou, e as chuvas acabaram por lhes salvar a vida. Após 38 dias de um misto de deriva e navegação foram salvos por um atuneiro japones que após quatro dias de viagem os desembarcou em Balboa. Depois de recobrarem o mínimo de saude, embarcaram em um navio de volta a Inglaterra. O Sr. Robertson era Capitão de Longo Curso aposentado, e mesmo com uma navegação sem aparelhos, bussola ou sextante seria capaz de levar sua familia para o litoral da America Central em mais dez dias de navegação, se nada mais de errado acontecesse.

OBS: Autor de um livro extremamente valioso para quem pretende navegar em mar aberto. Sua leitura preparou e até mesmo salvou muitos de seus leitores-navegadores. Infelizmente, nunca foi publicado no Brasil, e apenas uma edição portuguesa foi comercializada por aqui cerca de vinte anos atras, com o titulo “Sobrevivendo ao Mar Cruel”.

40 dias: Tami Oldham Ashcraft



Ela com 23 anos e seu noivo Richard Sharp realizavam o transporte de um barco entre o Tahiti e San Diego, quando a meia distancia de seu destino foram apanhados por um furacão categoria quatro.

Devido às péssimas condições de tempo seu barco acabou emborcando, fazendo-a desmaiar. Quando voltou a consciência descobriu que o barco havia adriçado sózinho e também que seu companheiro havia desaparecido, devido ao rompimento de sua linha de vida.

Ela conseguiu montar uma vela de fortuna e navegou para o Hawaii, distante mais de 1.500 milhas de distância, completando sua jornada cerca de 40 dias depois do acidente.

OBS: tragedia pura e sobrevivência através de uma armação de fortuna, demonstrando organização e preparo da sobrevivente.

50 dias: Os garotos de Fiji




Quando Samu Perez (15), Filo-Filo (15) and Edward Nasau (14) decidiram remar do Atol de Atafu para casa, em um pequeno bote de metal, num dia 5 de outubro, eles não tinham ideia do que poderia acontecer.

Arrastados por uma forte correnteza desapareceram no oceano e após buscas numa área de mil quilômetros quadrados, foram dados como mortos, tendo reunido mais de quinhentos parentes a amigos em um serviço funeral.

Durante os cerca de cinquenta dias à deriva, comeram peixe cru e gaivotas, beberam água de chuva e do orvalho que se acumulava na tolda da pequena embarcação. A poucos dias de seu resgate, passaram a beber água do mar, pois nada mais havia para aplacar a sede dos três.

No final de novembro foram avistados e resgatados por um atuneiro nas proximidades de Fiji, haviam derivado mais de oitocentas milhas. Sem conseguir se manter sobre as pernas, foram levados a um hospital, onde foram tratados de desidratação, anemia profunda e seríssimas queimaduras de sol, antes de retornarem às suas familias.

76 Dias: Steven Callahan

Steven Callahan, um experiente navegador, arquiteto naval e habil inventor, partiu a bordo do veleiro que havia projetado e construido, o Napoleon Sollo de apenas 23 pés, das Ilhas Canarias rumo as Bahamas. Uma semana após sua partida, numa noite de ventos fortes seu barco atingiu algo, possivelmente uma baleia ou contentor e naufragou em poucos minutos. Ele conseguiu ainda reunir alguns suprimentos, antes que o barco desaparecesse da superficie, como um saco de dormir, dois destiladores portateis, um arpão de elastico, uma faca, alguma agua e uma copia do livro Sea Survival de Dougal Robertson.

Sabendo que ninguém daria falta dele por algumas semanas, passou a se dedicar a sobrevivência. Por 76 dias ele seguiu por 1.800 milhas na deriva, ao sabor dos ventos e das correntes atraves do Atlântico. Pescou doze dourados, doze cangulos, quatro peixes-voadores, capturou tres aves e algums quilos de cracas, além de caranguejos e outros pequenos seres coletados em algas do tipo sargaço. Sobreviveu com não mais do que meio litro de agua destilada por dia, devido a pouca chuva desta região do oceano.

Sua balsa começou a afundar após 33 dias de utilização e a luta para mante-la flutando foi diaria e muito penosa. Seu resgate se deu ao acaso, quando um barco de pesca de Guadeloupe se deparou com ele. Após uma rápida recuperação em um hospital local, partiu de carona num outro veleiro a fim de retirar sua correspondência, que o aguardava nas Ilhas Virgens.

OBS: Seu livro, A Deriva, é referência de procedimentos de sobrevivência.

76 dias: Willlian (60) e Simone Butler (52)



Sobreviveram ao Pacifico, em 1989, após serem atacados por Baleias Piloto e verem seu veleiro de 40 pés, o Sibanay mergulhar nas profundezas do oceano. Ao lançarem a balsa, acabaram por furá-la e a custa de muito trabalho e engenhosidade conseguiram tampar os três buracos sofridos pela mesma, logo no primeiro instante, além de varias mordidas de tubarões sofridas nos dias que se seguiram. Eles derivaram por 1.200 milhas a partir do litoral da Costa Rica.

No tempo que tiveram para abandonar o veleiro, embarcaram alguns equipamentos que foram de primordial importancia, como um dessalinizador portatil, que permitiu que produzissem agua potável a partir da agua salgada. Com o equipamento de pesca, e alguma habilidade, capturaram cerca de 250 Kg de peixes, permitindo sua sobrevivência.



OBS: bom preparo e equipamento de qualidade os fizeram sobreviver.

Arrastados por uma forte correnteza desapareceram no oceano e após buscas numa área de mil quilômetros quadrados, foram dados como mortos, tendo reunido mais de quinhentos parentes a amigos em um serviço funeral.

Durante os cerca de cinquenta dias à deriva, comeram peixe cru e gaivotas, beberam água de chuva e do orvalho que se acumulava na tolda da pequena embarcação. A poucos dias de seu resgate, passaram a beber água do mar, pois nada mais havia para aplacar a sede dos três.

No final de novembro foram avistados e resgatados por um atuneiro nas proximidades de Fiji, haviam derivado mais de oitocentas milhas. Sem conseguir se sustentar sobre as pernas, foram levados a um hospital, onde foram tratados de desidratação, anemia profunda e seríssimas queimaduras de sol, antes de retornarem às suas familias.

89 dias: O Naufragio do Essex
Em 1820 um grande cachalote pôs a pique um navio baleeiro norte-americano, o Essex, nas proximidades das Galapagos, lançando sua tripulação em três pequenas baleeiras, armadas com pequenas velas de fortuna. Com estes barcos circularam pelo Pacifico tentando chegar ao litoral da America do Sul, pois temiam que os nativos da Polinesia os devorassem (uma meia-verdade), um dos barcos desapareceu nesta luta contra ventos e correntes. Parte da tripulação sobrevivente morreu de fome e sede, e alguns poucos acabaram sendo devorados ou mesmo sacrificados para servir de alimento para seus proprios companheiros de infortunio. Uma historia mais do que tragica, e que trouxe fatos chocantes a sociedade da época e ainda a atual. Herman Melville se inspirou no ataque para escrever Moby Dick, poupando seus leitores dos fatos que se seguiram.


OBS: o canibalismo já foi bem mais comum na historia distante dos naufragos, porém durante a Segunda Grande Guerra muitos sobreviventes utilizaram partes de seus companheiros como isca para pegar tubarões ou acabaram por comê-los enquanto tentavam sobreviver em suas balsas. O mais racente caso, foi o dos “Sobreviventes dos Andes”, acontecimento que comoveu o mundo e a propria Igreja, nos anos 1980.



Na próxima postagem iremos derivar mais longe ainda, passando facil dos 100 dias de sobrevivência.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

NÁUFRAGOS FAMOSOS - Parte I


Na historia da humanidade, não se tem ideia exata de quantas almas se perderam nos oceanos, rios e lagos do mundo. Milhares por certo, talvez milhões. Desde o primeiro homem pré-historico que se aventurou a atravessar um rio ou um braço de mar, muitas e muitas almas se perderam.

Reuni abaixo alguns naufragios que, apesar de grande sofrimento e algumas tragédias, trouxe de volta ao nosso convívio alguns de seus participantes, porém outros tantos se perderam, infelizmente. A ideia é analisar de forma mais “seca” cada evento, para que dele possamos tirar procedimentos e comportamentos que venham a nos auxiliar em alguma situação de perigo.

Vale pensar que um acidente raramente tem uma única causa. A maioria é um somatório de eventos, alguns causados pelo fator humano, outros pelo clima e alguns por falhas do material, mas muito raramente por um só motivo.

Com eles podemos aprender importantes lições e a melhor delas é que precisamos nos manter conscientes de nossas dificuldades e estar sempre preparados para o pior. Afinal, como alguém poderia sobreviver a uma situação tão extrema? Isto depende, sim depende de quão preparada para enfrentar esta situação uma pessoa pode estar.

Antes de iniciar sua leitura, lembre que uma regra básica levantada pelos estudiosos é que no mar, você sobrevive apenas três horas sem um abrigo flutuante (boia, colete, tambor, etc), três dias sem água e a no máximo três semanas sem comida. Alguém duvida?

4 dias: Brad Cavanagh and Deborah Kiley

Em um dia ensolarado no final do outono de 1982, um veleiro partiu numa rotineira viagem entre o Maine e a Florida. Eram cinco tripulantes, praticamente desconhecidos entre si. John Lippoth e sua namorada Meg Moony, Mark Adams, Brad Cavanagh e Deborah Scaling Kiley. Diferenças de carater e comportamento logo apareceram, devido ao abuso de alcool do Capitão e alguns tripulantes, além da falta de comprometimento quase que geral, com o trabalho de bordo.

No segundo dia de navegação o tempo começou a piorar e ao cair da tarde os ventos batiam nos 60 nós e as vagas alcançavam mais de cinco metros de altura. Brad e Debora enfrentaram o primeiro quarto da tempestade, permanecendo cerca de onze horas no cockpit enquanto os outros dois tripulantes e o Capitão bebiam na cabine. Quando John e Mark recobraram certa sobriedade, renderam os dois na vigilancia, e Debora e Brad finalmente puderam descer para algum descanço. No meio da noite foram acordados, enquanto vozes em panico alertavam que o barco estava afundando, foi quando perceberam que John e Mark haviam abandonado seu posto, e desceram para dormir, deixando o barco sem suporte.

Ao lançarem a balsa salva-vidas, a mesma foi carregada pelo forte vento deixando-os apenas com um bote zodiac de apoio como opção, este mesmo foi muito dificil de ser manobrado. Ao abandonar o Trashman, Meg ficou presa nas ferragens abrindo grandes e profundos ferimentos nos braços e pernas. Como o vento era muito frio e cortante, decidiram emborcar o bote, e ficaram todos por baixo dele, dentro da agua que estava ao menos 15 graus mais quente que o ar. Durante 18 horas permaneceram mergulhando para dentro e para fora do bote, para conseguir respirar, enquanto a tempestade continuava soprando com violencia.

No dia seguinte, a tempestade amainou e puderam colocar o bote em sua posição normal, subindo para o interior do mesmo. Ao fazê-lo, puderam identificar centenas de tubarões ao seu redor, percebendo que não eram chutes que haviam sentido durante o tempo dentro d’água, mas sim focinhadas de tubarões.

No terceiro dia, as lacerações de Meg tomaram conta de seu organismo, e ela ficou deitada em estado catatônico, sem reação por horas. Naquela noite Mark e John começaram a beber agua do mar, tornando-se cada vez menos coerentes e confusos mentalmente. John foi o primeiro a partir, ao dizer que podia ver terra e que iria buscar cigarros, escorregou pela lateral do bote e nadou uma pequena distancia desaparecendo na noite. Ouviu-se então um grito e depois apenas silencio. Por volta da mesma hora, o delirante Mark disse que precisava se refrescar e saltou para as aguas infestadas de tubarões. Ouve então uma forte movimentação ao redor do bote, e a agua se tornou vermelha de sangue, quando Mark desapareceu por completo.

Na quarta noite, Meg faleceu devido aos ferimentos, sendo lançada na agua. Pouco depois do amanhecer Brad e Deborah avistaram um barco vindo em sua direção, que realizou seu resgate.

OBS: Um período tão curto de deriva não poderia resultar em um fim tão tragico, o total despreparo das pessoas envolvidas e a falta de liderança do Capitão, foram os motivos que mais chamaram nossa atenção.

6 Dias: Troy e Josh

Em um dia 25 de Abril, Josh Long (17) e seu melhor amigo Troy Driascoll (15) decidiram sair para pescar em um bote. Ao se lançar, não levaram em consideração a as bandeiras de aviso de correnteza forte assinaladas na praia.

O bote foi puxado para longe, e em seu esforço para remar de volta, Troy acabou largando seu remo novinho em folha, irritado jogou suas iscas e material de pesca na agua em um desabafo.
Assim iniciaram sua dura jornada sem comida, agua e sem meios para consegui-las. Como o barco não possuia cobertura ou qualquer abrigo, tinham apenas as roupas para se proteger da forte insolação. A fim de reduzir o calor, passaram a dar alguns mergulhos, mas a aparição de um tubarão fez com que parassem.

Eles assim ficaram por seis dias inteiros, sem agua ou alimento. No sexto dia, quando já haviam escavado mensagens de adeus a seus familiares no interior do bote, avistaram um barco que os salvou. Após o resgate foram levados para um hospital, onde foram constatadas severas queimaduras e desidratação. Os medicos disseram que o estado de Troy era o pior, e que não viveria mais do que algumas horas.

OBS: adolescentes aprontando sem noção dos perigos. Sem mais comentarios.

12 dias: Amanda Thorns e Dennis White


Amanda Thorns (25), seu pai Willie (64) e o padrinho Dennis White (64), partiram de Cape Cod a bordo do veleiro Emma Goldman de 45 pés, no inicio de novembro de 2009. Mesmo já tendo velejado muitas vezes pela região, aquele seria o batismo dela em águas profundas, e planejavam singrar até a Ilha de Bermuda.

Ao meio dia, uma tempestade atingiu o barco obrigando-os a se esconder na cabine, enquanto aguardavam que o pior passasse. Na quarta noite com a tormenta ainda forte, o capitão Thorns ficou de vigília enquanto Amanda e White tentavam dormir na cabine. Enquanto enfrentavam ondas de 10 metros de altura, uma onda maior ainda envolveu o barco todo, fazendo-o capotar. O mastro, todo o estaiamento e o Capitão preso a linha de vida foram arrancados e lançados ao mar. Eles tentaram tudo para puxá-lo novamente para o barco, mas uma nova capotagem fez com que o cabo partisse e ele fosse levado pelas vagas.

Pelos tres dias seguintes tentaram se recuperar da enorme perda, e sem energia ou qualquer equipamento de comunicação passaram a utilizar os foguetes sinalizadores, na esperança de serem vistos por algum navio de passagem na área, porém sem sucesso.

Dez dias após a perda do capitão, conseguiram montar o mastro de apenas três metros do barco de apoio em um tipo de mastreação de fortuna e conseguiram velejar cerca de 50 milhas no primeiro dia, tentando chegar às rotas comerciais. No segundo dia conseguiram ser vistos por um navio petroleiro, que os salvou. No dia 21 de novembro chegaram a Bermuda, muito abalados pela perda do pai e melhor amigo, porém aliviados por estarem vivos.

OBS: novembro, pleno outono no Hemisferio Norte, costuma ser um mês extremamente instável no litoral norte-americano, e cuidados redobrados são indicados. Se propor a uma aventura nesta região e nesta época do ano foi sinal de excesso de confiança.


Daremos sequência a esta lista, esticando o prazo de mar pouco a pouco, até chegar ao nosso recordista atual e sua historia confusa.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Chase Boats, e os botes cresceram!

Todo barco que já pode ser considerado um pouco maior, passa a ter a necessidade de ser apoiado por um bote, geralmente inflável. Hoje, varias categorias de botes e barcos de apoio surgiram, de acordo com a necessidade das pessoas, o mercado e até o luxo desmedido.

Os botes antigamente eram utilizados de forma bastante extensiva. Levavam e traziam tripulantes e passageiros, transportavam peças, ferramentas e utensilios de bordo para terra e vice-versa, porém sempre sofreram uma restrição, que era o tamanho do “barco-mãe” onde seria estivado. Para içá-lo a bordo, utilizávamos turcos fixos e cabos com sistema de moitões, com o tempo passamos a utilizar turcos eletro-hidráulicos e até plataformas basculantes, mas o comprimento destes sempre foi obrigatoriamente menor do que a boca do barco-mãe.


Inicialmente, bem pequenos, leves e muitas vezes movidos a remos ou pequenos motores, cresceram de potência e hoje encontramos botes movidos a hidrojato e até mesmo com avançados motores de popa eletricos.

De uns tempos para cá, vimos surgir os Chase boats, mais do que simples botes, passaram a ser verdadeiros Barcos-de-Apoio, pois são grandes demais para serem estivados a bordo.
O termo em inglês “Chase” surgiu anos atras na indústria naval de apoio a produção de petroleo. Estes barcos são, ainda hoje, utilizados pelos navios de pesquisa e plataformas, para realizar serviços complementares, como “limpar” o caminho dos barcos de pesquisa geodésica como exemplo, pois este tipo de navio é obrigado a seguir uma derrota pré-estipulada e não pode desviar de barcos de pesca ou quaisquer outros obstáculos, portanto os chase seguem à frente avisando e retirando os problemas do caminho.

As plataformas os utilizam para retirar peças, lançar cordões de boias de contenção e ainda realizar a varredura ao redor das plataformas, onde pescadores costumam se posicionar aproveitando os peixes que costumam se concentrar nestas areas, porém suas linhas e anzois oferecem perigo aos mergulhadores e mesmo equipamentos móveis como os ROV’s, sendo necessária sua ação.
No iatismo internacional, os Chase boats surgiram na forma de pequenas lanchas ou não tão pequenas assim, que acompanham os barcos-mãe em suas viagens utilizando cabos de reboque ou mesmo propulsão propria. Em alguns casos, a tripulação é compartilhada e em outras tem organização propria, apesar de atenderem ambas ao mesmo proprietario.


Alguns anos atras, este tipo de barco de apoio se tornou uma verdadeira mania, e iates cruzavam do Caribe para a Florida através das Bahamas rebocando seu Chase para lá e para cá, apesar da condenação de suas companhias de seguro, visto que muitos se tratam de barcos para uso apenas em aguas abrigadas, e não para realizar travessias.

Bastante comuns são os chase destinados a operação de mergulho ou pesca oceânica, que acompanham o barco-mãe nos passeios, saindo para suas atividades como uma opção extra de diversão para os passageiros.

Particularmente, tenho experiência em rebocar um bote de 26 pés pelo litoral brasileiro, tendo realizado mais de uma viagem de Angra a Bahia e outros portos nordestinos, chegando mesmo a visitar Fernando de Noronha. Para tornar esta aventura possivel, nosso bote é equipado com dois motores centro-diesel, possui uma bateria a mais para serviço, pois utilizamos uma luz estrobo dia-e-noite ligada durante os períodos de reboque e ainda um transponder AIS banda B. Para o reboque, utilizamos um cabo de fibra sintética (Spectra™) de alta resistência além de ter realizado algumas pequenas modificações estruturais na proa do bote e na ventilação dos motores, que nos permitiram realizar estas travessias em segurança. Porém, a preocupação é permanente, e uma câmera de vigilância fica com o bote focado dia e noite, e quem esta no serviço de navegação fica com um olho na proa e outro acompanhando o barco que segue em nossa esteria. Lamentavelmente, devido ao reboque de quase três toneladas, aumentamos sensívelmente nosso consumo e perdemos quase 10% de nossa velocidade, além do que ficamos impedidos de soltar linhas de pesca durante as travessias, mas tudo isto vale a pena.

O uso deste barco de apoio nos permitiu realizar confortáveis passeios com todos os nossos passageiros de uma só vez, enquanto que nosso bote original não permitia mais do que três ou quatro pessoas mal acomodadas. Por possuir banheiro, cobertura, várias geleiras, ducha, som, espaço de convivência e grande autonômia, permite passar varias horas longe do barco mãe, aumentando (em muito) a qualidade dos passeios. Outra vantagem é a possibilidade de realizar traslados mais distantes, como levar e trazer passageiros de Angra para Paraty, sem ter de deslocar o barco-mãe, ou realizar pequenas expedições em locais onde o calado não nos permitiria chegar em segurança, como Cachoeira no alto do Rio Paraguaçu, no Oeste na Bahia de Todos os Santos.

Os Chase, aqui chamados de Barcos-de-Apoio são uma excelente ferramenta para aumentar o conforto e a qualidade dos passeios e do serviço de bordo, porém o custo de mais um barco, com vaga a mais em uma marina, equipamentos complexos e motores a serem revisados e abastecidos, um tripulante a mais ou um que ficará sobrecarregado atendendo a dois barcos, são itens que precisam da atenção de qualquer proprietario, antes de adotar esta ideia.


Lá fora, onde nem a imaginação e nem o capital aparentemente tem limites, existem barcos de apoio especializados em desembarcar veiculos em praias, como quadriciclos. Outros transportam plataformas de onde partem pequenos submarinos, outros toboaguas gigantes, cantos-gourmet flutuantes e até mesmo insólitas plataformas para jogar golf!

Não bastassem todas estas excentricidades, um novo tipo de embarcação esta sendo adotada pelos Iates muito grandes, mas não grandes o bastante para abrir mão de mais apoio, que são os chamados YSV (Yacht Support Vessels), dos quais falaremos numa próxima oportunidade.