domingo, 1 de abril de 2012

Barcos de Três Digitos

A primeira vez que ouvi esta expressão, confesso que levei alguns minutos para processa-la, mas com o seguir da conversa, foi facil e ao mesmo tempo desconcertante. Barcos com mais de 99 pés, entram nesta categoria, a tal dos “Três Digitos”, ou Super e Mega Yachts, categoria em que o Brasil praticamente não participa.

Décadas atras tive a oportunidade de comandar um barco de 137 pés, o Juruena, um navio Varredor-de-Minas construido nos EUA durante a Segunda-Guerra, e que foi vendido para a Marinha do Brasil, e utilizado por ela como tal, até seu leilão nos anos 1970. Já transformado em iate, e veterano de uma viagem ao Alto-Amazonas, estava fundeado na Enseada de Botafogo, no Rio de Janeiro, quando cheguei a bordo com seu proprietario e fui apresentado a sua numerosa tripulação. O problema é que aquelas pobres almas não conheciam a expressão: manobra de atracação, pois o barco jazia sob sua âncora fazia meses, e a tripulação colhia agua da chuva no convés do heliponto, e a direcionava para os tanques, ou então coletava água de uma pequena bica, no quadrado da Urca, e a utilizava para todas as necessidades de bordo.

Após meu embarque, começamos a procurar uma vaga, onde o barco pudesse amarrar em segurança, pois as poitas do Guarujá, em frente ao Iate Clube de Santos, estavam para ser retiradas devido a dragagem que deu origem as chamadas “Malvinas”, a marina do outro lado do canal em frente ao Clube. Na época, tentei negociar com o Bracuhy, mas nosso barco ocupava o espaço de um flutuante inteiro, com duzias de barcos menores. Ao entrar lá, eu tinha de largar duas âncoras a 45 graus da proa, uma outra pela popa no meio do canal, e ainda amarrar nas arvores e postes de luz, proximos ao antigo posto de abastecimento. Na Marina da Gloria, onde conseguimos ficar por algum tempo, a situação não era tão melhor, pois tivemos de contratar um mergulhador, que resgatou uma espia de navio, amarrada a três grandes poitas perdidas no fundo de lama, e chamada carinhosamente de “Giboia” e ainda amarrar nas pedras do enrocamento e lançar nossas duas pequenas âncoras naquele fundo movediço. O barco então conseguiu uma bica da preciosa água e também uma precaria tomada de energia, que mal aguentava nossas geladeiras e bombas.

Passados os anos, pergunto ao leitor onde encostar um barco destas dimensões? Se já teve oportunidade de navegar por nosso imenso e inóspito litoral, saberá que passado tanto tempo, quase não existem opções de atracação para grandes barcos. As existentes de localizam entre o Rio e o Guarujá, algumas perdidas pelo Sul, notadamente em Santa Catarina, e uma ou outra na Bahia e no Ceará. Parece pouco, e realmente é, pois a maioria delas até tem espaço para barcos grandes, mas seu cunhos de amarração são pequenos, a estrutura de suspentação dos fingers são extremamente fracas, e o fornecimento de água é fraco, sem falar no de energia que raramente atende as necessidades de grandes barcos.

No exterior, onde o fluxo de embarcações deste tipo é muito maior, o normal é contarmos com duas tomadas de energia, uma para o serviço geral do barco e outra apenas para o sistema de ar condicionado, o que não raramente utiliza duas tomadas de 50 Amp, no Brasil quando encontramos uma de 25 Amp já é milagre!

Portanto, se pretende adquirir um barco desta categoria, procure antes uma boa vaga: que tenha proteção para seu barco, que permita que ele entre e saia a qualquer momento (sem depender de maré), que não corra riscos quando estiver atracado, quer seja pelo mar e pelo vento, quer seja pela vizinhança; que possa ser lavado com água limpa e a qualquer hora (pois durante o dia, algumas marinas ficam sem pressão na rede de água, e outras quando chove, servem um liquido parecido com chá); que possuam uma rede de energia elétrica com a capacidade que lhe será necessária e que o KWA não seja cobrado a preços europeus.

Bem sabemos que os desafios são grandes, para quem se aventura a ser proprietario de um Super ou Mega-Yacht, mas os prazeres e compensações tem igual sabor de sucesso, e o sentimento que somente os grandes vencedores podem experimentar.

Boa Navegação!

Um comentário:

  1. seria bom se ouve-se mais dessas embarcações por aqui

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